Primeiramente, aproveito para mencionar que acho a prisão dos trabalhadores do megaupload um absurdo. Não foram eles que "piratearam" conteúdo. Num péssimo exemplo, se alguém grafita o muro da minha casa com uma letra de música, não fui eu que infringi leis de copyright...
Isso é só mais uma demonstração de que os gigantes do entretenimento etc estão atacando a internet como nunca. E eu, ingênuo, pensei que depois do caso Napster a indústria fosse tentar se adaptar à nova realidade (e parece ter tentado)... Ledo engano.
...
Ignorando a loucura da SOPA de, se entendi bem, responsabilizar os sites por conteúdos publicados pelos seus usuários, vamos ao cerne desse post.
Devemos entrar em desespero porque as músicas do Justin Bieber e Michel Teló poderão sair da inet ou ficar impedidas de serem compartilhadas via facebook?
Se bem me lembro, em 1997, quando comecei a me aventurar na web, havia muito pouco conteúdo "pirata' (ou pirateável) na internet. Ainda não havia blog, twitter, orkut e outros, mas existiam os mais variados sites sobre os mais diversos assuntos. A maior parte do conteúdo não tinha copyright.
Hoje temos Creative Commons, Left Right e idéias (e ideais) de elaboração coletiva de conteúdos. Há músicas boas, vídeos bons, sites bons, e nem tudo pertence à Universal (estúdio/gravadora) ou à Abril.
Será que, ao invés de pensarmos no que estamos perdendo, não é melhor pensar nesse momento como uma possibilidade de tomar outro rumo que não seja esse que tem levado a inet a tornar-se uma "televisão interativa"?
Numa indagação ainda mais utópica: Será que precisamos tanto assim de livros ou filmes que nos contam estórias... enquanto poderíamos estar vivendo as nossas próprias?
Tudo bem, livros, filmes etc nos trazem valores e ensinamentos, mas precisamos tanto assim dessas fontes a ponto "roubá-las"?
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"
Por LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE MILÃO

Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de "ala das ciências banidas", como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas ("são maçons de saia", diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX - como o Protocolo dos sábios do Sião - poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou - o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições - e até gostando de ler livros... pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.
ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco - Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.
ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?
Eco - A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.
Eco - Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.
ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?
Eco - Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.
Marcadores:
hiper trecho,
Informação etc
domingo, 25 de dezembro de 2011
Democracia direta e digital?
Democracia direta é qualquer forma de organização na qual os cidadãos possam participar diretamente no processo de tomada de decisões sem ter representantes fazendo isso em seu lugar. Nela, o povo participa diretamente da vida política do Estado exercendo os poderes governamentais, fazendo leis, administrando e julgando. As primeiras democracias da antiguidade foram democracias diretas, e o exemplo mais marcante é o de Atenas (e de outras cidades gregas), nas quais o Povo se reunia nas praças e ali: "deliberavam sobre assuntos do governo, declaravam a guerra, estabeleciam a paz, escolhiam magistrados, funcionários públicos e até julgavam determinados crimes" (ROCHA).
Democracia Direta na CFRB:
Parágrafo único do 1º artigo:
"Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição"
Artigo 37
§ 3º A lei disciplinará as formas de participação do usuário na administração pública direta e indireta, regulando especialmente: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
I - as reclamações relativas à prestação dos serviços públicos em geral, asseguradas a manutenção de serviços de atendimento ao usuário e a avaliação periódica, externa e interna, da qualidade dos serviços; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
II - o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre atos de governo, observado o disposto no art. 5º, X e XXXIII; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
III - a disciplina da representação contra o exercício negligente ou abusivo de cargo, emprego ou função na administração pública. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
Em geral, parece que essa atuação direta se daria somente por meio de plebiscitos, referendos e iniciativa popular (ROCHA).
Não saco hermeneutica jurídica nem conheço a legislação à fundo, portanto vou me abster de mais comentários nessa área.
Democracia eletrônica
A e-democracy, ou democracia eletrônica, utiliza tecnologias de informação em processos políticos e governamentais. Segundo a Wikipedia, almeja aumentar a participação dos cidadãos por meio da internet.
Democracia estendida
A idéia de democracia estendida teve seu início numa escola em Vallentuna, subúrbio ao norte de Estocolmo, Suécia, em outubro de 2000, a partir de um seminário intitulado "Tecnologias da informação e democracia" que questionava por que tão poucos jovens são politicamente ativos. A resposta de alguns estudantes foi que eles não aprovavam o fato de ter que escolher entre ideologias, pois enxergavam a complexidade da política para além das limitações de "direita-esquerda". Outros estudantes, mais descrentes do sistema político vigente, argumentaram que as decisões são tomadas de cima para baixo e não de forma emergente (baixo para cima). Da discussão entre alunos e professores acerca das possibilidades tecnológicas aplicadas à democracia nasceu a idéia da Demoex, culminando no registro do partido e do candidato em 2002, trazendo uma única promessa: Democracia direta. A operacionalidade foi baseada na experiência do pioneiro em "e-democracy" Mikael Nordfors, fundador de um partido semelhante nos anos de 1990.
O Demoex se localiza numa comunidade diminuta e, provavelmente muito homogênea. Pensando em Brasil, a viabilidade de uso a nivel estadual ou nacional da democracia estendida digital dependeria não só da tecnologia em si, mas também do acesso material e cognitivo da população à ela - da capacidade social de entendimento. Eszter Hargittai (apud HONGLADAROM) argumenta que a exclusão digital não é meramente questão de possuir ou não a tecnologia (computador, conexão etc.), mas resultaria também da falta de habilidade que as pessoas têm quando estão online. A autora continua seu argumento afirmando que ter a posse da informação não faz o indivíduo deixar de ser um excluído digital. É necessário considerar as habilidades envolvidas no uso pleno dos recursos informacionais, ou seja, ser capaz de utilizar a informação disponível.
Daí (me) pergunto: Como fazer uma democracia direta via internet ser realmente democrática, no sentido de ser inteligível a toda uma população, uma vez que, ainda que reunida sob a forma de uma nação, [a população] demonstra uma certa heterogeneidade cultural? A construção de um "portal” na internet para participação ativa do cidadão na política, como o do partido Demoex, teria que levar em conta as diferenças culturais entre cada região que, possivelmente, interferem na forma como cada grupo mais ou menos homogêneo de "usuários" vê e interpreta um mesmo conjunto de informações. Os portais de transparência pública brasileiros são um bom exemplo: Para que eles sejam verdadeiramente democráticos, não basta que mostrem as estatísticas e resultados do governo, é preciso que a informação veiculada seja perceptível e cognoscível a todos cidadãos.
Então, cito alguns autores:
Shera (1952) sobre a epistemologia social:
"(...)pesquisa sobre os meios pelos quais uma sociedade, nação, ou cultura alcança compreensão da totalidade dos estímulos que atuam sobre ela".
Levy (1993) e a ecologia cognitiva:
"A inteligência ou a cognição são o resultado de redes complexas onde interage um grande número de atores humanos, biológicos e técnicos. Não sou ‘eu’ que sou inteligente, mas ‘eu’ com o grupo humano do qual sou membro, com minha língua, com toda uma herança de métodos e tecnologias intelectuais" (pg 83).
"é o estudo das dimensões técnicas e coletivas da cognição” (LEVY, pg 84)
Sendo assim, para aproximarmo-nos de uma efetiva democracia direta, devemos estar municiados de dados/informações para apoiarmos nossas decisões, dados esses que devem ser acessíveis material e cognitivamente. Ou seja, nós precisamos estar preparados para decidir e as fontes de informação precisam estar adaptadas às necessidades e particularidades do cidadão politicamente ativo.
Isso me traz à mente o Edward Tufte autor do livro "The Visual Display of Quantitative Information", um cara que odeia o Powerpoint (inclusive o culpa pelo desastre do Columbia) pela suas limitações de densidade de informação e que afirma que os gráficos estatísticos devem:
mostrar os dados;
contar a verdade;
ajudar o visualizador a pensar mais na informação do que no design;
encorajar a comparação dos dados;
ter os dados coerentes.
Mais sobre o E.T.:
Uma apresentação sobre ele: http://classes.ninabellisio.com/GD3371/tufte.pdf
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/1,,EMI269857-17773,00.html
Para finalizar, arrisco dizer que há duas principais questões sobre uma Democracia Direta:
- uma relativa à capacidade do cidadão (ligada, portanto, ao sistema educacional e também ao INDIVÍDUO)
- outra ligada às fontes de informação, que devem ser elaboradas com foco nesse novo usuário final.
A segunda, creio, poderia ser melhor estudada com base na Epistemologia Social de Shera, na Ecologia Cognitiva de Levy, semiótica, User Experience, Marketing/ publicidade (é um bom ponto de partida para estabelecer maneiras de entender e agradar o público alvo) e Design de Informação.
* O design de informação é uma questão interessante até fora dessa utópica democracia direta eletrônica. Portais de transparência precisam ser pensados nesse contexto. E não só eles. Os próprios políticos, que representam a heterogeneidade da nação (de representantes das Elites a ex-palhaços), talvez careçam de dados de qualidade (inteligível, suficiente, confiável etc.) para entenderem todo o contexto das situações em que terão que tomar decisões.
HONGLADAROM, SORAJ. Making Information Transparent as a Mean to Close the Global Digital Divide. Minds and Machines 14: 85–99, 2004. 2004 Kluwer Academic Publishers. Printed in the Netherlands.Disponível em: http://homepage.mac.com/soraj/web/Making%20Info%20Transparent.pdf
ROCHA, Maria Elizabeth Guimarães Teixeira. Plebiscito e referendo: instrumentos da democracia direta: uma reflexão jurídica sobre a teoria e prática de sua utilização. In Revista Jurídica / Presidência da República. Brasília, vol. 7, n. 74, agosto/setembro 2005. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/Rev_74/artigos/MariaElizabeth_rev74.htm Acessado aos 08/10/2011
Democracia Direta na CFRB:
Parágrafo único do 1º artigo:
"Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição"
Artigo 37
§ 3º A lei disciplinará as formas de participação do usuário na administração pública direta e indireta, regulando especialmente: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
I - as reclamações relativas à prestação dos serviços públicos em geral, asseguradas a manutenção de serviços de atendimento ao usuário e a avaliação periódica, externa e interna, da qualidade dos serviços; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
II - o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre atos de governo, observado o disposto no art. 5º, X e XXXIII; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
III - a disciplina da representação contra o exercício negligente ou abusivo de cargo, emprego ou função na administração pública. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
Em geral, parece que essa atuação direta se daria somente por meio de plebiscitos, referendos e iniciativa popular (ROCHA).
Não saco hermeneutica jurídica nem conheço a legislação à fundo, portanto vou me abster de mais comentários nessa área.
Democracia eletrônica
A e-democracy, ou democracia eletrônica, utiliza tecnologias de informação em processos políticos e governamentais. Segundo a Wikipedia, almeja aumentar a participação dos cidadãos por meio da internet.
Democracia estendida
A idéia de democracia estendida teve seu início numa escola em Vallentuna, subúrbio ao norte de Estocolmo, Suécia, em outubro de 2000, a partir de um seminário intitulado "Tecnologias da informação e democracia" que questionava por que tão poucos jovens são politicamente ativos. A resposta de alguns estudantes foi que eles não aprovavam o fato de ter que escolher entre ideologias, pois enxergavam a complexidade da política para além das limitações de "direita-esquerda". Outros estudantes, mais descrentes do sistema político vigente, argumentaram que as decisões são tomadas de cima para baixo e não de forma emergente (baixo para cima). Da discussão entre alunos e professores acerca das possibilidades tecnológicas aplicadas à democracia nasceu a idéia da Demoex, culminando no registro do partido e do candidato em 2002, trazendo uma única promessa: Democracia direta. A operacionalidade foi baseada na experiência do pioneiro em "e-democracy" Mikael Nordfors, fundador de um partido semelhante nos anos de 1990.
O Demoex se localiza numa comunidade diminuta e, provavelmente muito homogênea. Pensando em Brasil, a viabilidade de uso a nivel estadual ou nacional da democracia estendida digital dependeria não só da tecnologia em si, mas também do acesso material e cognitivo da população à ela - da capacidade social de entendimento. Eszter Hargittai (apud HONGLADAROM) argumenta que a exclusão digital não é meramente questão de possuir ou não a tecnologia (computador, conexão etc.), mas resultaria também da falta de habilidade que as pessoas têm quando estão online. A autora continua seu argumento afirmando que ter a posse da informação não faz o indivíduo deixar de ser um excluído digital. É necessário considerar as habilidades envolvidas no uso pleno dos recursos informacionais, ou seja, ser capaz de utilizar a informação disponível.
Daí (me) pergunto: Como fazer uma democracia direta via internet ser realmente democrática, no sentido de ser inteligível a toda uma população, uma vez que, ainda que reunida sob a forma de uma nação, [a população] demonstra uma certa heterogeneidade cultural? A construção de um "portal” na internet para participação ativa do cidadão na política, como o do partido Demoex, teria que levar em conta as diferenças culturais entre cada região que, possivelmente, interferem na forma como cada grupo mais ou menos homogêneo de "usuários" vê e interpreta um mesmo conjunto de informações. Os portais de transparência pública brasileiros são um bom exemplo: Para que eles sejam verdadeiramente democráticos, não basta que mostrem as estatísticas e resultados do governo, é preciso que a informação veiculada seja perceptível e cognoscível a todos cidadãos.
Então, cito alguns autores:
Shera (1952) sobre a epistemologia social:
"(...)pesquisa sobre os meios pelos quais uma sociedade, nação, ou cultura alcança compreensão da totalidade dos estímulos que atuam sobre ela".
Levy (1993) e a ecologia cognitiva:
"A inteligência ou a cognição são o resultado de redes complexas onde interage um grande número de atores humanos, biológicos e técnicos. Não sou ‘eu’ que sou inteligente, mas ‘eu’ com o grupo humano do qual sou membro, com minha língua, com toda uma herança de métodos e tecnologias intelectuais" (pg 83).
"é o estudo das dimensões técnicas e coletivas da cognição” (LEVY, pg 84)
Sendo assim, para aproximarmo-nos de uma efetiva democracia direta, devemos estar municiados de dados/informações para apoiarmos nossas decisões, dados esses que devem ser acessíveis material e cognitivamente. Ou seja, nós precisamos estar preparados para decidir e as fontes de informação precisam estar adaptadas às necessidades e particularidades do cidadão politicamente ativo.
Isso me traz à mente o Edward Tufte autor do livro "The Visual Display of Quantitative Information", um cara que odeia o Powerpoint (inclusive o culpa pelo desastre do Columbia) pela suas limitações de densidade de informação e que afirma que os gráficos estatísticos devem:
mostrar os dados;
contar a verdade;
ajudar o visualizador a pensar mais na informação do que no design;
encorajar a comparação dos dados;
ter os dados coerentes.
Mais sobre o E.T.:
Uma apresentação sobre ele: http://classes.ninabellisio.com/GD3371/tufte.pdf
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/1,,EMI269857-17773,00.html
Para finalizar, arrisco dizer que há duas principais questões sobre uma Democracia Direta:
- uma relativa à capacidade do cidadão (ligada, portanto, ao sistema educacional e também ao INDIVÍDUO)
- outra ligada às fontes de informação, que devem ser elaboradas com foco nesse novo usuário final.
A segunda, creio, poderia ser melhor estudada com base na Epistemologia Social de Shera, na Ecologia Cognitiva de Levy, semiótica, User Experience, Marketing/ publicidade (é um bom ponto de partida para estabelecer maneiras de entender e agradar o público alvo) e Design de Informação.
* O design de informação é uma questão interessante até fora dessa utópica democracia direta eletrônica. Portais de transparência precisam ser pensados nesse contexto. E não só eles. Os próprios políticos, que representam a heterogeneidade da nação (de representantes das Elites a ex-palhaços), talvez careçam de dados de qualidade (inteligível, suficiente, confiável etc.) para entenderem todo o contexto das situações em que terão que tomar decisões.
HONGLADAROM, SORAJ. Making Information Transparent as a Mean to Close the Global Digital Divide. Minds and Machines 14: 85–99, 2004. 2004 Kluwer Academic Publishers. Printed in the Netherlands.Disponível em: http://homepage.mac.com/soraj/web/Making%20Info%20Transparent.pdf
ROCHA, Maria Elizabeth Guimarães Teixeira. Plebiscito e referendo: instrumentos da democracia direta: uma reflexão jurídica sobre a teoria e prática de sua utilização. In Revista Jurídica / Presidência da República. Brasília, vol. 7, n. 74, agosto/setembro 2005. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/Rev_74/artigos/MariaElizabeth_rev74.htm Acessado aos 08/10/2011
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Por que ainda não entendo o Facebook
Apesar de ter conta no FB, não vejo nele tanta graça quanto via no moribundo Orkut.
Nas comunidades do Orkut, pessoas sem qualquer conexão no sistema (amigos) se reunem num espaço mais ou menos organizado para discutir temas mais ou menos específicos. Lá ensinei pouco, mas aprendi muita coisa. É nada mais que um Forum com mais possibilidades de contato.
O FB, depois que ganhou o "feed twíttico" virou um grande mural de "mi mi mi", demonstrações verbais de bom caráter e bom mocismo e relato do cotidiano. Tá certo que o FB é o que fazemos dele, mas sinto falta de uma funcionalidade que traga mais objetividade na participação. As comus do Orkut, por exemplo, direcionam a forma de como a gente escolhe perder tempo, enquanto no FB postamos qualquer coisa ou vemos qualquer coisa que alguém postou. A chance de qualquer discussão razoável dispesar é muito maior no FB, e você discute apenas com "amigos".
***
Ok, existem os grupos. Não tem moderação e tem a cara da página pessoal.
Mas eu ainda não achei onde pesquisa grupos e eles são desorganizados...
Bom, talvez seja eu que não entenda o uso que as pessoas em geral fazem do FB, ou só tenha "amigos" chatos.
Nas comunidades do Orkut, pessoas sem qualquer conexão no sistema (amigos) se reunem num espaço mais ou menos organizado para discutir temas mais ou menos específicos. Lá ensinei pouco, mas aprendi muita coisa. É nada mais que um Forum com mais possibilidades de contato.
O FB, depois que ganhou o "feed twíttico" virou um grande mural de "mi mi mi", demonstrações verbais de bom caráter e bom mocismo e relato do cotidiano. Tá certo que o FB é o que fazemos dele, mas sinto falta de uma funcionalidade que traga mais objetividade na participação. As comus do Orkut, por exemplo, direcionam a forma de como a gente escolhe perder tempo, enquanto no FB postamos qualquer coisa ou vemos qualquer coisa que alguém postou. A chance de qualquer discussão razoável dispesar é muito maior no FB, e você discute apenas com "amigos".
***
Ok, existem os grupos. Não tem moderação e tem a cara da página pessoal.
Mas eu ainda não achei onde pesquisa grupos e eles são desorganizados...
Bom, talvez seja eu que não entenda o uso que as pessoas em geral fazem do FB, ou só tenha "amigos" chatos.
sábado, 3 de dezembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
Filtros na Internet - Palestra de Eli Pariser na conferência TED em 2011 (legendado).
O Patrick (rick lixo) me indicou pelo FB (primeira vez que o FB me oferece mais do que fofoca) esse vídeo sobre filtros na internet. Muito bom, embora meu lerdox não tenha me permitido assitir até o final....
Um pouco sobre o vídeo:
Os filtros utilizados na nternet, por exemplo, pelo Facebook e Google, estão personalizando a web. Tá certo que o paradigma do mercado de serviços e produtos é (ou era) buscar a personalização para agradar ao maior número de pessoas possível, e não a média. Porém, na "era digital" isso parece não estar dando muito certo.
As filtragens feitas por algoritmos estão transformando cada pessoa (perfil) numa auto-ditadura. Os feeds e os resultados da pesquisa não se baseiam mais no quase infinito conteúdo da internet*, mas na média do que você costuma acessar. Ou seja, a diversidade é quase que eliminada, ocultando os resultados dissonantes...
...Isso acaba evitando o tão salutar estranhamento...
...
Steven Johson já havia escrito sobre esse fenômeno em 2001, no livro "Emergência (...)", numa análise do fórum "Slashdot: News for Nerds", que filtrava as postagens de acordo com a média das notas recebidas, criando uma "ditadura do usuário médio".
"É totalmente possível que as regras (...) tenham criado uma tirania da maioria em Slashdot (...). Mensagens que coincidem com o usuário 'médio' do Slashdot têm mais possibilidade de chegar ao topo, enquanto as que expressam um ponto de vista da minoria podem ser rebaixadas no sistema." (JOHNSON p.119)
Na mesma obra, o autor propõe uma solução que promova também a diversidade. Bastaria modificar a filtragem de forma que ela se baseasse não na avaliação média, mas nos desvios-padrão. Isso resultaria numa inversão do que seria informação relevante, favorecendo o surgimento do "novo". O interessante é que essa possibilidade na modificação da filtragem fosse uma opção feita pelo o usuário, e que este pudesse mesclar proporcionalmente as filtragens, promovendo tanto a média (seu perfil) quanto os desvios-padrão.
"porque o sistema de feedback estaria recompensando perspectivas que desviam da linha mestra, que não têm o objetivo de agradar a todo mundo o tempo todo." (JOHNSON, 2003 pg.119)
JOHNSON, Steven. Emergência: a vida integrada das formigas, cérebros, cidades e softwares. Trad. de Maria Carmelita Pádua Dias. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2003
*Um dos motivos do uso de filtros tão bigodudos pode ser justamente o conteúdo absurdo da internet. Sem eles talvez seja muito mais trabalhoso realizar qualquer busca no google. Ou talvez tudo não passe de uma conspiração para nos deixar mais limitados...
Um pouco sobre o vídeo:
Os filtros utilizados na nternet, por exemplo, pelo Facebook e Google, estão personalizando a web. Tá certo que o paradigma do mercado de serviços e produtos é (ou era) buscar a personalização para agradar ao maior número de pessoas possível, e não a média. Porém, na "era digital" isso parece não estar dando muito certo.
As filtragens feitas por algoritmos estão transformando cada pessoa (perfil) numa auto-ditadura. Os feeds e os resultados da pesquisa não se baseiam mais no quase infinito conteúdo da internet*, mas na média do que você costuma acessar. Ou seja, a diversidade é quase que eliminada, ocultando os resultados dissonantes...
...Isso acaba evitando o tão salutar estranhamento...
...
Steven Johson já havia escrito sobre esse fenômeno em 2001, no livro "Emergência (...)", numa análise do fórum "Slashdot: News for Nerds", que filtrava as postagens de acordo com a média das notas recebidas, criando uma "ditadura do usuário médio".
"É totalmente possível que as regras (...) tenham criado uma tirania da maioria em Slashdot (...). Mensagens que coincidem com o usuário 'médio' do Slashdot têm mais possibilidade de chegar ao topo, enquanto as que expressam um ponto de vista da minoria podem ser rebaixadas no sistema." (JOHNSON p.119)
Na mesma obra, o autor propõe uma solução que promova também a diversidade. Bastaria modificar a filtragem de forma que ela se baseasse não na avaliação média, mas nos desvios-padrão. Isso resultaria numa inversão do que seria informação relevante, favorecendo o surgimento do "novo". O interessante é que essa possibilidade na modificação da filtragem fosse uma opção feita pelo o usuário, e que este pudesse mesclar proporcionalmente as filtragens, promovendo tanto a média (seu perfil) quanto os desvios-padrão.
"porque o sistema de feedback estaria recompensando perspectivas que desviam da linha mestra, que não têm o objetivo de agradar a todo mundo o tempo todo." (JOHNSON, 2003 pg.119)
JOHNSON, Steven. Emergência: a vida integrada das formigas, cérebros, cidades e softwares. Trad. de Maria Carmelita Pádua Dias. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2003
*Um dos motivos do uso de filtros tão bigodudos pode ser justamente o conteúdo absurdo da internet. Sem eles talvez seja muito mais trabalhoso realizar qualquer busca no google. Ou talvez tudo não passe de uma conspiração para nos deixar mais limitados...
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Você compra o que está na gôndola junto ao caixa do supermercado?
Segundo Spink & Cole, a psicologia evolucionária eleva a necessidade humana de informação, de uma necessidade secundária, a uma necessidade fundamental - um requisito para adaptação e sobrevivência.
Alimentação também é uma necessidade fundamental para a sobrevivência e veja as estratégias que os supermercados (e os anúncios) utilizam para direcionar os consumidores para o que não é exatamente o melhor...
O mesmo acontece com a informação!?
Consumimos enlatados ou a evolução deles, os congelados, que nos fazem mal, ao invés de nos alimentar eficientemente. Mas não os abandonamos por conta da facilidade em se obter, da fartura com que são encontrados e porque eles nos permitem exercer uma atitude passiva: é só saber utilizar o microondas - basta assistir ao prato girar.
Logo:
A lasanha congelada ou a notícia sobre o dia a dia de alguma celebridade não estão nos ajudando a sobreviver, pelo contrário, estão entupindo nossas artérias e mentes com lixo*. Mas estão muito bem localizados, lá junto ao caixa...
*Se consumí-los não nos prejudicasse (ficasse no zero a zero) seria apenas entretenimento.
Curiosidade:
Segundo os autores, a habilidade dos humanos de representar o mundo simbolicamente pode ter surgido gradualmente, criada pela cultura, ou, o que é mais provável, que 30.000 ou 50.000 anos atrás ocorreu uma mutação aletória na cognição do homem possibilitando-o a vencer a concorrência com outras espécies, quase tornando-o uma "força geológica" (Wilford, 2002). Essa habilidade teria permitido então que os humanos pensassem no passado e no futuro, construindo soluções para problemas com base em padrões de comportamento elaborados a partir da análise crítica das experiências passadas.
SPINK, Amanda. COLE, Charles. A Human Information Behavior Approach to a Philosophy of Information. Disponível em: https://www.ideals.illinois.edu/bitstream/handle/2142/1690/Spink617628.pdf?sequence=2
- Ok., td isso é bullshit.
Uma correção:
A notícia sobre o dia a dia de alguma celebridade é sim importante para adaptação e sobrevivência (hehe) se você for apresentador(a) de um programa de variedades como, por exemplo Claudete Troiano (veja aqui o porquê)
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