sexta-feira, 18 de março de 2011

Novo jornal da arquivologia UNIRIO - Inspiração Miscelânea

Apesar do nome não muito inspirado, do caráter oficiálico de jornal DO diretório acadêmico e da participação de docentes...

...Não posso negar que, sem entrar no mérito da qualidade ou imparcialidade ou bla bla bla, o bicho tá de primeira. Eu que sou da época dos analógicos (e quase porcos em sua apresentação) "O Permanente" e "Arquijaz", não consigo esconder a surpresa com algo tão profissa!

http://www.inspiracaomiscelanea.tk/

E mais um livro... Emergência: A vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares.


Eu estava lendo esse formidável livro e me deparando inúmeras vezes com questões quase arquivísticas - e por sua vez, de CI. Até que da página 89 à 93 eu resolvi tirar uns nacos da obra para enfeitar o blog. Estou na metade do livro, mas já recomento a qualquer profissional da informação, apesar dele ser um tanto desatualizado (2001). Portanto você não encontrará termos da moda como web semântica ou 2.0, 3.0 etc.

De fato você pode verdadeiramente entender Brewster Kahle até que ele lhe mostre a fazenda de servidores no porão da Alexa Internet. Descendo um lance de degraus externos, ao lado de uma antiga construção militar de triagem de pessoal, no Presídio de São Francisco, há um universo inteiro de informações – ou, ao menos, um banco de servidores Linux, de tons escuros, arrumados ao longo de uma parede de quase sete metros. A sala – de concreto, com umas poucas janelas que dão para o nível da calçada – deve ter abrigado um cortador de grama e algumas estantes esparsas alguns anos atrás. Atualmente, ela conserva o que deve ser o retrato mais perfeito da Inteligência Coletiva no mundo inteiro: 30 terabytes de dados que arquivam tanto a Web quanto os padrões de tráfego fluindo através dela.
                Como criador do sistema Servidor de Informação de Grande Área, que tem a sigla WAIS, a partir do nome em inglês (Wide Area Information Server), Kahle já era uma lenda quando lançou o Alexa em 1996. O software Alexa usava tecnologia do tipo de filtragem colaborativa para construir conexões entre sites baseadas no tráfego de usuários. Os resultados dessa tecnologia são exibidos na opção de menu “sites relacionados” na maioria dos navegadores de hoje. A Amazon.com adquiriu o Alexa Internet em 1999, mas a companhia permanece comodamente instalada nos seus escritórios low tech no presídio, estruturas temporárias da Segunda Guerra Mundial repletas com odor de eucaliptos próximos. “Em apenas três anos, ficamos maiores do que a Biblioteca do Congresso, que é a maior do planeta”, diz Kahle, braços abertos no seu porão de servidores. “Portanto a pergunta é: o que faremos agora?”
                Obcecado com a impermanência dos atuais fluxos de dados, Kahle e seu sócio Gilliat fundaram a firma Alexa com a idéia de fazer “instantâneos” da Web, indexando-os permanentemente em grandes arquivos para o armazenamento em benefício de futuros historiadores. Ao desenvolver o projeto, ocorreu-lhes que poderiam facilmente abrir o maciço banco de dados a qualque usuário da Web, de modo que este, em sua navegação na Web, tivesse a possbilidade de acessar páginas relevantes a partir do banco da Alexa. Toda vez que um navegador encontrasse um erro tipo “Página 404 não encontrada” – o que significa que uma página antiga havia sido apagada ou alterada – , ele poderia rapidamente consultar o arquivo da Alexa e recuperar a página original.
                (...) Rapidamente verificou que havia encontrado um programa que poderia fazer muito mais do que recuperar antigas páginas da Web. Pelo acompanhamento dos padrões de navegação dos usuários, o software também poderia fazer conexões entre sites da Web, conexões estas que, de outra forma, poderiam ficar invisíveis, tanto para os criadores daqueles sites quanto para as pessoas que neles navegam.
                Dois meses após ter começado a trabalhar no software Alexa, Kahle acrescentou um novo botão à ferramenta, com um simplesmas provocativo “O que vem a seguir?”. Clique no botão quando estiver visitando um site de tributo a Marilyn Monroe e encontrará um conjunto de links para outros santurários virtuais sobre ela; clique ao visitar um site comunitário de sobreviventes do câncer e encontrará um hospedeiro de outras páginas semelhantes listadas em menu. Como são formadas essas conexões? Observando os padrões de tráfego e procurando seus vizinhos. O software aprende observando o comportamento dos usuários do Alexa: se uma centena visita FEED e depois pula para Salon, então o software começa a perceber uma conexão entre dois sites, que pode ser enfraquecida ou fortalecida à medida que mais comportamentos são rastreados. Em outras palavras, as associações não são o trabalho de uma consciência individual, mas sim a soma total de milhares e milhares de decisões individuais, um guia para a Web criado pelo rastreamento de um número inimaginável de pegadas.
                A idéia toda é fascinante e estranhamente apropriada. Afinal de contas, um guia para a Web inteira deve ser mais do que uma coleção de avaliações mecânicas. Como diz Kahle, “aprender com usuários é a única coisa que tem uma escala compatível com o tamanho da Web”. (...) O poder associado do programa Alexa – o site X é parecido com os outros sites Y e Z – emerge das inconstantes viagens de sua base de usuários; nenhum desses usuários está deliberadamente se expondo para criar conjuntos de sites relacionados entre si, com a finalidade de dotar a Web de um estrutura bastante necessária. Eles simplesmente estão atrás de seus negócios e o próprio sistema aprende por observação.  (...) Se somente mil pessoas apontam para Alexa em seus navegadores, as recomendações não serão tão precisas simplesmente por falta de informação suficiente. Porém, se mais de dez mil usuários são acrescentados à mistura, é impressionante como as associações de sites ganham forma. O sistema começa a aprender.
                Sejamos claros sobre o que se vincula a esse aprendizado, pois ele difere significativamente dos tradicionais retratos da ficção científica da inteligência computadorizada, tanto utópicos quando distópicos. O programa Alexa não faz nenhuma tentativa direta de simular consciência ou inteligência humana. Em outras palavras, você não ensina o computador a ler ou apreciaro design de sites da Web. O software simplesmente procura padrões em números (...). De fato, a “inteligência” do Alexa é a sabedoria agregada de milhares – ou milhões – de pessoas que usam o sistema. O computador mistura os milhões de avaliações de seu banco de dados, procura por padrões de apreciação e rejeição, e depois relata para o usuário o que encontrou.
                Vale a pena aqui notar que o Alexa não é, na realidade, um “agente de recomendação”; não lhe está dizendo que você gostará dos cinco sites que sugere. Ele indica que existe uma relação entre o site que você está visitando e os outros listados no menu. (...) O link não está recomendando uma outra página; está mostrando que há uma relação entre a frase que você está lendo e a página indicada por ele. Cabe a você decidir se está interessado  em outros sites (...).
(...)
Os humanistas da velha escola tendem, certamente, a achar alarmante a idéia de recorrer a computadores em busca de conhecimento especializado e refinamento cultural. Na maioria dos casos, as objeções dos críticos soam como uma versão estranhamente invertida dos velhos contos morais que um dia nos alertaram contra as máquinas animadas: o aprendiz de feiticeiro de Goethe (e Disney), o homem de areia de Hoffman, o Frankenstein de Shelley. Na versão contemporânea, não é que a tecnologia escrava fique mais forte do que nós e aprenda a desobedecer as nossas ordens – mas sim que nós nos deterioremos ao nível das máquinas. A tecnologia nos torna mais estúpidos.
Sem dúvida, a crítica tem seus méritos e, mesmo na comunidade da Net – se ainda é possível falar de uma única comunidade da Net –, o software inteligente ainda é motivo de difamação em alguns lugares. Décadas atrás, em um livro curioso e brilhante, God and Golem Inc., Norbert Wiener argumentava que “em poemas, romances, pintura, o cérebro parecer ser capaz de trabalhar muito bem com material que qualquer computador que rejeitaria, por considerar amorfo”. Para muitas  pessoas, a discriminação persiste até hoje; olhamos para nossos computadores como calculadoras; quando queremos informação cultural, já somo abençoados com uma quantidade de seres humanos para consultar. Outros críticos têm medo de um estreitamento em nossos parâmetros de estética, com agentes recomendando mecanicamente os sites nos quais todos surfam, enquanto envolvem astutamente suas recomendações em pele de cordeiro, dando a impressão de indicar a cultura ideal para cada consumidor.
Parece um tanto ingênuo, porém, resistir ao impulso de experimentar o sistema cultural vigente, em que o gosto musical é comumente determinado  pelos departamentos de marketing da Sony e da Dreamworks, e o conhecimento especializado vem das colunas de Ann Landers e da Psychic Hotline. Se, afinal, o computador está meramente fazendo conexões entre sensibilidades culturais diferentes, sensibilidades essas que, originalmente, eram desenvolvidas por seres humanos e não por máquinas, então o modelo de software emergente é preferível ao modo como muitos ocidentais consomem divertimento: obedecendo  a ordens ditadas pela propaganda. Afinal de contas, uma programa como o Alexa não tenta reproduzir o autoritarismo onisciente do Grande Irmão ou de HAL – ele tenta, sim, reproduzir a sociável e comunitária prática de vizinhos que compartilham informações em uma calçada cheia, mesmo que esses vizinhos sejam totais estranhos, comunicando-se através da rede distribuída Web.


- emergência, simplificando, seria quando se emerge uma organização complexa de um sistema composto por partes com ações simples. Algo que me lembra de uma definição de sistemas, onde a soma das partes isoladas não é igual ao todo.

- Assim que li sobre o tal "Alexa" eu me lembrei dos Internet Archives - por outros motivos além dos dois estarem sediados em São Francisco. Na mosca! Entrei no site dos IA e encontrei a informação de que receberam doações do Alexa...


http://www.archive.org/

Johnson, Steven. Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. Trad. Maria Carmelita Pádua Dias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed., 2003



sexta-feira, 11 de março de 2011

Os Arquivos Imperfeitos - Fausto Colombo

Já há algum tempo sem nada de bom para escrever aqui, venho, pelo menos, indicar algo bom para ler.

O livro em questão exigiu demais do meu intelecto, que se situa entre o quase e o nada - e talvez entre o mediano, me forçando várias vezes a ler e reler alguns trechos para depois desistir e avançar, aceitando o meu analfabetismo funcional momentâneo. Com toda certeza não é um livro para se ler no ônibus - nem mesmo no metrô!

É interessante ler um livro escrito em 1986 que trata um pouco de tecnologia por dois motivos: para saber como as coisas evoluíram; e para se sentir assistindo à um filme de ficção científica na sessão da tarde.

Do que entendí, o cerne da obra são os "Mitos Arquivísticos" e toda a obsessão arquivística e colecionística a que já estávamos expostos em 1986. Imagine esse livro reescrito atualmente, nessa época em que pessoas vão à shows e filmam o tempo todo?.. Para desenvolver o tema, o autor passeia por diversas áreas como psicologia, filosofia, sociologia, ciência computacional, literatura, cinema etc.

Fausto Colombo inicia a obra trazendo os conceitos Aristotélicos de mnéme e anámnesis, que consistem em guardar ou conservar o passado e recuperar ou acessar o passado, respectivamente. Mais para o fim do livro, esse assunto é retomado, mas pelo ponto de vista da psicologia, onde temos a memória primária (laboratório) e a secundária (armazém).  A memória primária seria aquela que "registra" o que vemos no mundo exterior ou acessa a memória secundária, essa seria a memória de longo prazo. Algo comparável à memória RAM e os discos rígidos. É interessante perceber que a memória secundária teria um quê de "selecionada" - a não ser que você seja "Funes, o memorioso" de Borges, me fazendo lembrar imediatamente da avaliação em arquivos.

O autor afirma, em um dos capítulos em que mais exercí o "fast-foward" do analfabetismo funcional momentâneo, que filmes, enquanto obras ficcionais, são "memórias paradoxais" nas quais a lembrança é  signo de si mesma (pg 58), ou seja, o filme representaria a si próprio, ainda que de alguma forma representaria a si próprio.

Lá pelas páginas 97 e 98 são expostas algumas teorias do esquecimento.

E lá na página 121, surge a definição de máquinas e instrumentos. Instrumento seria (como me lembro do McLuhan...) extensão de uma capacidade do homem e máquina algo que modificaria o seu utilizador, "impondo-lhe as próprias leis e próprios ritmos". O computador, que foi o que trouxe a discussão instrumento/máquina, seria ambos. Ao mesmo tempo em que é uma extensão da memória (e por que não, raciocínio), modifica o seu utilizador.

Não vou rescrever o livro todo aqui, afinal de contas, ele está a venda (sob encomenda) na livraria da travessa. Mas tenho que colocar mais uma cousa apenas...

Na página 114, falando sobre identidade e sujeito, ilustrando com uma obra de Michel Proust, Colombo afirma:
"Memória não mais define o indivíduo, mas dele projeta uma simples ficção na tela da consciência". Aí reside a "desconfiança acerca da capacidade de recuperação do passado".

* se interpretei algo (muito)errado, a culpa é do ensino de base que tive.

Colombo, Fausto. Os Arquivos Imperfeitos. Memória Social e Cultura Eletrônica. Debates Comunicação. Ed Perspectiva, 1991.

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