sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Instrumentos lingüísticos: língua e memória - Mariza Vieira da Silva

Hoje enquanto passava uns PDFs para PRC resolvi passar a vista sobre o texto título desse post. Assumo que a minha capacidade intelectual está um pouco aquém do necessário para o pleno entendimento da obra em questão, mas arrisco-me a extrair umas partes bem interessantes...

No texto são apresentados verbetes de dicionários e ressaltados aspectos um tanto curiosos sobre a construção dos mesmos...

Invertendo a ordem em que aparecem no texto, começo com esse trecho de um parágrafo e os 2 parágrafos completos abaixo:

"O dicionário adquiria, assim, como diz Orlandi (2002), o sentido de uma tecnologia própria à configuração de relações sociais específicas e entre seus sujeitos, na história. Ele é, desse modo, constitutivo da formação social, e de produção de uma subjetividade, complementaria."(pg 116)

"Saber que o dicionário não é um monumento à língua, mas um instrumento tecnológico construído pelo homem em momentos históricos determinados, sendo a neutralidade e objetividade efeitos ideológicos, pelo apagamento da interpretação ali presente, foi uma dos maiores ganhos nesta análise discursiva feita pelos alunos: poder observar e compreender como ali o saber a língua e o saber sobre a língua andam juntos,
como a unidade se produziu pelo apagamento, pelo silenciamento, pelo esquecimento, mas também pelo repetição, pela presença constante de um memorável, tornado institucional, oficial. Esse efeito sujeito de usuário de dicionário é de identificação com esse efeito ideológico de unidade e de universalidade da língua, da língua de todos os brasileiros." (pg 116)

"Não há, pois, uma única mão nesse processo de produção do conhecimento sobre o português como língua nacional em sua relação com as obras e autores da literatura, pois nem todos os autores são “escolhidos” pelos gramáticos e dicionaristas. Agustini (2004) lembra que Lima Barreto, um autor do modernismo, ‘subversivo’ em relação à língua, dificilmente será referido para legitimar uma regra gramatical. E falando dessa mão dupla, dessa circularidade existente entre a norma e o cânone, esta autora, lembra também que
a gramática (e o dicionário, acrescentaríamos) tem uma certa importância na consagração de um autor, já que o põe na condição de modelo de comportamento lingüístico correto e, mais que isso, estilístico."(pg 116)

Antes de trazer o que realmente me chamou a atenção na obra, insiro uma passagem de outro texto de tema muito semelhante:

"Para Orlandi (2003, p. 15), há dois tipos de memória: a memória discursiva e a memória institucionalizada. A memória discursiva é constituída pelo esquecimento, são todas as enunciações já ditas e silenciadas pelas condições de produção. Já a memória institucionalizada é o arquivo, estabilização dos sentidos. No arquivo, o dizer é documento, atestação dos sentidos, efeito de relações de forças, nele há um fechamento. Nas palavras da autora (2003, p.22), a memória de arquivo “representa o discurso documental, a memória institucionalizada que é aquela justamente que fica disponível, arquivada em nossas instituições e da qual não esquecemos. A ela temos acesso, basta para isso consultar os arquivos onde ela está representada”. (ORLANDI, E.P. Ler a cidade: o arquivo e a memória. In: ___ (org). Para uma enciclopédia da cidade. Campinas: Pontes; Labeurb, 2003. apud "DICIONÁRIO DA LÍNGUA BRASILEIRA: MEMÓRIA OU ESQUECIMENTO?" - SEM AUTORIA INDICADA. disponível em: http://www.discurso.ufrgs.br/sead3/trabalhos_aceitos/DICIONARIO_DA_LINGUA.pdf)

Agora continuemos no texto título:

"Reinaldo Fogaça (2003), um aluno que se decidira trabalhar com a palavra “mulher”, do dicionário Aurélio (1975), depara-se com uma questão inesperada, ao observar a estrutura e o funcionamento do verbete: a dos limites de se ser mulher em uma sociedade em que proliferam os discursos sobre a emancipação feminina.
Mulher. [do lat. muliere.] S. f. 1. Pessoa do sexo feminino, após a puberdade. [aum.: mulherão, mulheraça, mulherona.] 2. Esposa (1). * Mulher à-toa. Bras. Pop. V. meretriz: “Papai fica na igreja vigiando: se entra mulher à-toa, corre com ela.”(Geraldo França de Lima, Branca Bela, p. 63.) Mulher da comédia. Bras., SP. Pop. V. meretriz. Mulher da rótula. Bras., RJ. Pop. V. meretriz. Mulher da rua. Bras.
V. meretriz. Mulher da vida. Bras. V. meretriz. Mulher da zona. Bras. V. meretriz. Mulher de César. Mulher de reputação inatacável. Mulher de má nota. Bras. V. meretriz. Mulher de ponta de rua. Bras. N. e N.E. V. meretriz. Mulher do fado. Bras. SP. Pop. V. meretriz. Mulher do fandango. Bras. SP. Pop. V. meretriz. Mulher do mundo. Bras. Pop. V. meretriz. Mulher do pala aberto. Bras. SP. Pop. V. meretriz. Mulher do piolho. Bras. Fam. Mulher muito teimosa: Ô velhinha teimosa! é pior que a mulher do piolho! Mulher errada. V. meretriz. Mulher fatal. Mulher particularmente sensual e sedutora, que provoca ou é capaz de provocar tragédias: “Cadê Maria Rosa, / Tipo acabado de mulher fatal / Que tem como sinal / Uma cicatriz, / Dois olhos muito grandes, uma boca e um nariz.”(Da marcha Cadê Maria Rosa?, de Nássara e J. Rui). Mulher perdida. V. meretriz. “Custavalhe acreditar que o filho a houvesse enganado, abusando do seu estado para meter em casa uma mulher perdida.” (Coelho Neto,Turbilhão, p. 314) Mulher pública. Bras. SP. Pop. V.
meretriz., meretriz. Mulher vadia. Bras. V, meretriz.

No verbete, só há dois enunciados definidores. O primeiro situa a mulher no campo biológico e o segundo, no campo de uma determinada estrutura familiar. A partir daí só vamos encontrar o termo “meretriz” e suas paráfrases, sustentada pelas categorias de “brasileirismo” e de “popular”. Se não for esposa, que lugar resta para a mulher ocupar na sociedade? E a esposa não pode ser sedutora? E ter olhos grandes? E os exemplos, simulando trazer os usos, o cotidiano, os vários sentidos para o dicionário, apontam para a exclusão dessa mulher outra, que não é esposa, até mesmo do plano divino, evidenciando o tratamento das diferenças, pelo jogo da neutralidade e objetividade.

Esse mesmo aluno, trabalhando o termo “velhice” se indignou ao constatar que ele trazia como sinônimos: “rabugice ou disparate próprio de velho”. E, seguindo a sua indignação e a própria estrutura de remissão de um verbete a outro do dicionário, vai encontrar em “rabugice”: “mau-humor permanente de pessoa rabujenta, ranzinza: rabugice de velho”. Como se estabilizou esse referente e se construiu esse efeito-sujeito?

Ana Carolina de Alvarenga Moura e Érika Ochsendorf resolveram trabalhar o núcleo familiar, pensando a sociedade moderna, e trouxeram para análise não só o termo “família”, mas também “madrasta”, “padrasto”, “enteado” e “filho”. Trago aqui somente dois dos verbetes analisados, como forma de mostrar a assimetria existente entre eles e as discrepâncias aí envolvidas, por elas observadas.

Madrasta – [Do lat. matrasta, pej.de mater, ‘mãe’] S. f. 1 Mulher casada, em relação aos filhos que o marido teve de matrimônio anterior. 2 Fig. Mãe ou mulher descoroável. [Nessa acepção é feminino de padrasto] Adj. ( f ) 3 Pouco carinhosa, ingrata, má.

Padrasto – [Do lat. vulgar patrastu, com dissimilação] S. m. indivíduo que ocupa o lugar de pai em relação aos filhos que sua mulher teve de um casamento anterior. [Fem. madrasta].

As questões sociais também são tecidas por essa memória como podemos observar pelos verbetes analisados discursivamente por outros dois alunos, Anna Karla Lima Cruz e Daniel Lima Ferreira Filho, em seu trabalho “Dicionário: neutralidade ou ideologia” (2003). Os termos escolhidos foram “elite” e “povo” e os recortes incidiram sobre vários dicionários, evidenciando o funcionamento tenso da repetição.

Grande Dicionário Enciclopédico Novo Brasil (1979)
Elite: aristocracia, escol, nata.

Povo (ô) S.m. Conjunto de indivíduos que habitam o mesmo país e vivem sujeitos às mesmas
leis; conjunto dos habitantes de uma localidade; pequena povoação; lugarejo; multidão de gente;
o público (considerado no seu conjunto); a classe inferior e mais numerosa de um país; plebe/
Brás. Família/ S.m. pl. as nações.

Novo Dicionário Aurélio (1986)

Elite [ Do fr. élite] S.f. 1. O que há de melhor em uma sociedade ou num grupo; nata; flor; fina flor; escol. [ Cf. flor (S).] 2. Social. Minoria prestigiada e dominante no grupo, constituída de indivíduos mais aptos e / ou mais poderosos.

Povo (ô) S.m. 1. Conjunto de indivíduos que falam a mesma língua, tem costumes e hábitos idênticos, afinidade de interesses com a história e tradições comuns. 2. Os habitantes de uma localidade ou região. 3. V. povoado. 4. aglomerado de gente; multidão. 5. O conjunto de pessoas às classes menos favorecidas; plebe. 6. ralé (1). 7. fig. Grande número; quantidade. 8. Brás. a família. 9. Brás. P. ext. as pessoas que nos cercam, os colegas, os amigos, os companheiros, gente. [pl. povos (o); aum: povaréu.] povos naturais. Etnol. povos ou sociedades que tem pouco desenvolvimento técnico e / ou meios reduzidos para dominar a natureza: povos primitivos, sociedades primitivas. Povos primitivos. Etnol. V. povos naturais.

Dicionário Escolar da Língua Portuguesa (1986)
Elite: sf. (gal) Escol, nata, fina flor.

Povo (ô), S.m. Conjunto dos habitantes de um país; habitantes de uma localidade; pequena povoação; lugarejo; multidão de gente; (fig) grande número; (Aum. e depr: povaréu. Dim. depr: provoléu e povoléu; pl: as nações.) – S. naturais: (Etnol.) povo ou sociedade que dispõe de pouco desenvolvimento técnico ou de poucos meios para dominar a natureza, também chamados povos ou sociedades primitivas.

Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa (1990)

Elite: S. f (fr. élite). Palavra adotada em quase todas as línguas modernas, para significar a escol da sociedade, de um grupo; de uma classe; escol, nata.

Povo. S.m. (l. populu). 1. Conjunto de pessoas que constituem uma tribo, raça ou nação: povo brasileiro. 2. Conjunto de habitantes de um país, de uma região, cidade, vila ou aldeia. 3. Social; sociedade composta de diversos grupos locais, ocupando território delimitado e cônscia da semelhança existente entre seus membros pela homogeneidade cultural. 4. pequena povoação. 5. As pessoas menos notáveis e menos privilegiadas de uma nação ou localidade / a plebe. 6. Grande número; quantidade. 7. família: como vai seu povo? S.m.p. As nações. Aum. Pej. Povaréu. Dim. Pej. Povoléu. P. da lira: grêmio de capa dócios ou capoeiras serenatistas. P. de Deus: o povo escolhido; o povo judeu. P. natural: o mesmo que povo primitivo. P. primitivo; social: o que forma sociedade isolada; semicivilizada, quando comparada com as civilizações urbanas industrializadas da atualidade."
(pg 113-115)

Nota da autora:
1 Este trabalho inscreve-se em um projeto mais amplo denominado História das Idéias Lingüísticas no Brasil (acordo CAPES/COFECUB), desenvolvido entre duas instituições brasileiras, a Universidade Estadual de Campinas e a Universidade Estadual de São Paulo, e uma instituição francesa, a École Normale Supérieure Lettres et Sciences Humaines de Lyon.

Texto disponível em: w3.ufsm.br/revistaletras/artigos_r27/revista27_11.pdf

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Excesso de informação - Ver pornografia na internet causa disfunção erétil, diz estudo

Mais uma vez venho falar mal do excesso de informação...
Outro dia eu tava na sala de espera do dentista para arrancar meu último ciso - finalmente, quando o dentista ouviu a recepcionista falando que era engraçado eu não gostar de assistir televisão. Ele logo se manifestou: -Como você consegue? Ah, você deve ficar na internet o tempo todo para saber das coisas!

Ele não estava totalmente errado. Depois do que está a minha volta, a internet é a minha principal fonte de informação, muito embora eu só acesse portais uma vez por dia... Do que me importa tantas notícias que pouco ou nada tem a ver comigo? Eu diria que, para mim, ler notícias alimenta muito mais as minhas paranoias do que a minha alma...

Mas não vim falar mal das notícias. Esse post começa agora e pela notas de rodapé! hehehe

1 - Media is the message. Se você só assiste filmes ao invés de ler, é bem provável que se torne um melhor espectador do que leitor! Sacou?
2- O excesso de pornografia indireta gera uma supressão na necessidade fisio/psicológica. Tá sobrando informação, mas ela não tem uma qualidade de vivência muito forte. O perigo do excesso de informação é mais abrangente do que a diminuição da produção no trabalho!

Ver pornografia na internet causa disfunção erétil, diz estudo


Ver pornografia na internet pode ser o caminho mais rápido para ficar impotente.

É isso que aponta uma reportagem da revista "Psychology Today", publicada recentemente.

Para fazer a afirmação, a publicação se baseia no estudo do urologista italiano Carlo Foresta, da Universidade de Pádua.

Segundo a pesquisa, nada menos que 70% dos jovens do sexo masculino que procuram tratamento para problemas de performance sexual admitiram ver pornografia na internet de forma habitual.

Eles não conseguem ter ereção quando estão com uma mulher de verdade, mesmo não tendo nenhum problema físico, mas se masturbam normalmente com estímulos que encontram em sites pornográficos¹.

Como, comprovadamente, a masturbação sozinha não causa o problema, os pesquisadores apontaram que ele estaria mesmo relacionado ao uso excessivo do material encontrado na internet e da necessidade de ver situações cada vez mais extremas para se excitar².

Segundo a revista, o problema atinge todas as culturas, classes sociais e níveis de educação.

Mas, calma, tudo tem solução. Um "rehab" para os onanistas de plantão leva de 6 a 12 semanas, o tempo que o cérebro leva para se acostumar de novo ao estímulo sexual sem as imagens da internet.



http://noticias.bol.uol.com.br/ciencia/2011/08/09/ver-pornografia-na-internet-causa-disfuncao-eretil-diz-estudo.jhtm

  ©Template por Dicas Blogger Modificado por mim!

TOPO