sábado, 24 de agosto de 2013

Gnoseologia e epistemologia

Não estou capacitado a falar de Gnoseologia e Epistemologia, porém, num arroubo fenomenológico (haha) posso falar da minha dificuldade com relação às definições que venho encontrando.

Resumidamente, pode-se dizer que a Gnoseologia ou Teoria do Conhecimento é dedicada, especificamente, ao estudo da possibilidade do conhecimento, isto é, da faculdade humana de conhecer. As principais questões dela seriam:

  • A possibilidade do conhecimento
  • A origem do conhecimento
  • O limite do conhecimento
  • A essência do conhecimento
  • As formas do conhecimento
  • O valor do conhecimento (o problema da verdade)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Gnosiologia

A Epistemologia, por sua vez, é direcionada a questões como o valor da verdade e a validação e justificação nas ciências - teria a ver, por exemplo, com os métodos cartesianos.

Aí é que vem o meu problema:

A ciência, a verdade e o método, embora possam ter certa influência biológica (se usarmos as palavras de Lakoff e Johnson¹) são majoritariamente "históricos".

A faculdade de conhecer, ou seja, como nós somos estimulados, percebemos, assimilamos e raciocinamos seria, a meu ver, o oposto! Há diversos mecanismo inatos, como os dos sentidos e memória, que dificilmente podem ser considerados como históricos (exceto se tomarmos um ponto de vista evolutivo!). A parte do raciocínio e resposta a estímulos já poderia ser encarada por uma abordagem mais sociológica, embora eu não acredite que somente ela seja capaz de dar uma explicar boa...

Aí vem o problema: encontro algumas discussões em torno da Epistemologia, que discutem correntes como cognitivismo e o sócio construtivismo, que às vezes usam o termo Epistemologia abarcando a Teoria do Conhecimento, e em outras em senso estrito!

Acho que as correntes sócio construtivistas são perfeitamente aplicáveis aos estudos da Epistemologia enquanto "Filosofia da Ciência" (senso estrito), mas que são insuficientes para ela enquanto "Filosofia do Conhecimento" (Gnoseologia)...

1- "The same neural and cognitive mechanisms that allow us to perceive and move around also create our conceptual systems and modes of reason. Thus, to understange reason we must understand the details of our visual systems, our motor system, and the general mechanisms of neural binding. (LAKOFF e JOHNSON, 1999, p. 4)
Isto é, se a razão é construída com base em estruturas inatas, logo, nossas concepções abstratas - que variam conforme o tempo e local (como verdade na ciência) - também seriam influenciadas, em algum grau, por mecanismos inatos...


LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and it's challenge to western thought. New York: Ed. Basic Books, 1999. Disponível em:

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Determinismos...

Apesar de estar a cada dia com menos tempo para postar, vou colocar uma opinião minha parcamente embasada...

Todo dia me vejo cercado de determinismos (vou usar esse termo, apesar da imprecisão): de gênero, de cor, de classe social, idade etc. Antigamente (e muito hoje também) tudo se justificava na fundação divina e centralidade humana, hoje, há inúmeras (con)correntes que buscam explicar o homem como um ser determinado por sua estrutura neural, por atributos metafísicos ou por estruturas de poder que existem na sociedade.

Eu acredito em micro-determinismos, ou melhor, diversos fatores ínfimos que, em conjunto, geram uma totalidade complexa que pode ser determinante. Frente aos cognitivismos exacerbados e Idealistas, vejo os "construtivismos sócio-históricos" (principalmente frente ao que seria "verdade"); mas frente a estes últimos, vejo os cognitivismos moderados, como os que afirmam que nossa cultura é antes de tudo influenciada pelos nossos mecanismos perceptivos e cognitivos (LAKOFF e JOHNSON, 1999) -  o que nos leva ao conto "The country of the blind" de H.G. Wells. O conto se passa numa fictícia montanha no Equador onde um cara que enxerga vai parar numa sociedade formada por cegos. Ao invés de reinar sobre eles, é tratado como louco e quase sofre uma operação para retirar os olhos - tidos como órgãos defeituosos!

Encerro com duas passagens do Wolff:


 “Um belo dia, no fim século passado, o homem mudou. Considerado à luz da Psicanálise ou da Antropologia Cultural havia cerca de trinta anos, estava sujeito ao peso das estruturas, era determinado pelas condições sociais e familiares, governado por desejos inconscientes, dependente da história, da cultura, da língua (...) esse homem desapareceu furtivamente da paisagem.” (WOLFF, 2012, pg. 7)

 “Na época do 'homem estrutural', na França, o autismo era competência da Psicanálise: era uma 'doença mental' catalogada entre as 'psicoses'. A fortaleza vazia, de Bruno Bettelheim, e sua noção de 'mães geladeira', tomada de Léo Kanner (o inventor da síndrome de 'autismo infantil precoce'), faziam autoridade. Os Lacanianos propunham diversos conceitos descritivos ou explicativos que, todos eles, relacionavam o autismo a uma falha na relação com a mãe (com seu 'significado'), a uma carência da simbolização primária etc. Uma ou duas gerações mais tarde, na era do 'homem neuronal' (...) recomendaram (...) que se passasse a considerar o autismo uma perturbação ligada ao desenvolvimento neurológico” (WOLFF, 2012, pg. 7 e 8).



LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and it's challenge to western thought. New York: Ed. Basic Books, 1999. Disponível em:
http://pt.scribd.com/doc/125507724/Lakoff-Johnson-Philosophy-in-the-Flesh. Acessado aos 15/08/2013.


WOLFF, Francis. Nossa Humanidade: de Aristóteles às Neurociências. São Paulo: UNESP, 2012.

  ©Template por Dicas Blogger Modificado por mim!

TOPO